Reflexão: o “povo de Deus” versus Pregador Luo

Foto: Reprodução Facebook

       por adailton moura

O cristão que tem disposição para emitir opiniões, se posicionar ou fazer qualquer tipo de crítica que questione o presidente da república corre o sério risco de ser julgado e condenado no tribunal da internet por “juízes”, que dizem professar a mesma fé (esqueceram de Mateus 7.1: “Não julguem, e assim vocês não serão julgados! Porque como julgarem os outros, vocês também serão julgados. E a medida que usarem, também será usada para medir vocês). Obviamente não há novidade nisso, tendo em vista que a grande maioria dos evangélicos contribuiu nas urnas para a vitória dele. Há quem diga que Jair foi escolhido por Deus. Dúvidas sobre isso também existe, considerando que suas atitudes e discursos vão totalmente contra os exemplos de Jesus.

O ato mais recente foi um insulto contra a jornalista Patrícia Campos Melo, da Folha de São Paulo. O desrespeito, contendo insinuações sexuais, do número 1 da república ecoou rapidamente. Profissionais da imprensa, políticos e artistas cobraram um posicionamento de Damares Alves, Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Mas nada. Silêncio total.

Na lista dos “manifestantes” estava Pregador Luo. Através de uma enquete no Instagram, que em seguida foi publicada na timeline, ele fez seu pedido. Rapidamente, os evangélicos de plantão apareceram.

Nos quase mil comentários, Luo recebeu diversos ataques. Poucos se dispuseram dialogar sobre o assunto (não por acaso Jesus disse, Mateus 10.36, que os piores inimigos estarão justamente dentro de casa). Um dos textos dizia: “seu post infelizmente foi de alguém que como os esquerdas (sic) não querem um Brasil melhor para todos, mas sim para seus próprios interesses… se liga”. Num post sequencial, o rapper compartilhou a ameaça de censura do diretor (o nome não foi revelado) de uma das maiores rádios (não se sabe qual) de música gospel de São Paulo. “Desceu para o play então não pede pra sair. Na emissora que eu trabalho e sou coordenador suas músicas serão banidas da programação. Onde você estava em outros governos?”, escreveu.

Só quem não conhece o extenso trabalho musical do Luo para criticá-lo por opinar sobre ações de governantes. Durante toda a carreira ele fez músicas que batiam de frente com o sistema. De “Muita Treta” (do APC 16) ao “Último Dia” (com o Templo Soul). Mediante a ausência da possibilidade de uma conversa, o rapper decidiu apagar os posts. Felizmente, ele vai na contramão de muitos artistas de música gospel e líderes religiosos que preferem se calar ou defender atitudes anti-cristãs. São coniventes com ideias e ideais de um governo que se autodeclara (terrivelmente) evangélico, conservador e detentor dos princípios da família. Assim, a “igreja” se cala mediante a diversos desvio de conduta de quem consideram exemplo. Aí quando a contestação vem, inicia-se uma “guerra santa” entre “irmãos”. (“Esse povo se aproxima de mim com a boca e me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” – Mateus 15.8). Os tempos são difíceis. Mas Jesus já tinha alertado que nunca seria fácil. Teríamos aflições.

A parceira evangélicos X Bolsonaro deu o aval para que condutas antes feitas de forma velada fossem evidenciadas sem nenhum tipo de problema. O racismo e a homofobia são algumas delas. O mesmo Pregador Luo já tinha sido criticado dias antes por elogiar uma entrevista do Dr. Drauzio Varella ao Roda Viva, da TV Cultura, em que ele falava sobre o trabalho com pessoas LGBT. Ser sal e luz não é algo simples. Os irmãos não entenderam o que Jesus quiz dizer com “vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Pelo contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus” (Mateus 5:14-16). Tem que deixar a luz brilhar, fazer a diferença num mundo com o amor cada vez mais escasso.

Luo faz sua parte. Porém, há quem se incomode. E por que as pessoas estão (tão) incomodadas com ele? Um dos principais motivos é o racismo estrutural que existe na sociedade brasileira e que está bem enraizado na comunidade cristã. É claro que vão dizer que é mimimi e tudo mais. Mas o Pregador Luo não e o primeiro nem será o último (infelizmente). Anos atrás o Thalles foi “cancelado” pelos “irmãos”. Não o perdoaram por suas palavras (que não foram tão graves quanto as do líder da nação). Kleber Lucas também recebeu várias “porradas” por se juntar a pessoas de outras religiões (já vimos essa história antes nos evangelhos). O Preto no Branco também tem se tornou alvo fácil por levar o evangelho às pessoas que estão no carnaval. Se organize

O problema é que poucos querem olhar para esse problema. Isso não é de hoje, e tem sido cada vez mais normal. Num discurso, Martin Luther King falou: “Há pouca esperança para nós (negros) até que sejamos determinados o bastante para nos desvencilharmos dos grilhões dos preconceitos, das meias verdades e da completa ignorância”.

A esperança é que a atitude do Pregador Luo seja seguida por muitos outros, famosos e desconhecidos. Não devemos nos calar. “Quando homens maus conspiram, homens bons devem planejar. Quando homens maus incendeiam e bombardeiam, homens bons devem construir e unir. Quando homens maus gritam feias palavras de ódio, homens bons devem se dedicar às glórias do amor. Onde homens maus procurariam perpetuar um status quo injusto, homens bons devem procurar gerar ordem real de justiça” (Martin Luther King).

3 Comments

  1. Jrg

    24/02/2020 at 13:55

    Excelente!!!

  2. Fábio Carlos

    25/02/2020 at 11:56

    Excelente reflexão!

    acrescentaria mais uma musica de protesto aí

    “façam barulho”

    Outra mais direta também é “meus inimigos estão no poder”

  3. Heitor

    25/02/2020 at 12:48

    Que alento ler um meio de comunicação cristão se posicionar contra as atrocidades anti-cristãs professadas pelo inquilino da presidência da república.
    Que mais Luos apareçam, dispostos a confrontar o sistema racista e anti-cristo de parte da igreja dita evangélica.

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